domingo, 7 de fevereiro de 2010

Há tanto tempo que te amo




"O que Dostoiévsky sabia de assassinatos?
Nada!
As obras primas são apenas hipóteses. São construções simplistas que não são nada comparadas à vida. Nada!"

Il y a longtemps que je t'aime
Phillipe Claudel

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Um Post para Mr. Almost


Sei que você me pediu para aparecer, dar uma notícia. Reli várias vezes seu bilhete

"inquieta e nunca resignada, procurando uma explicação e um sentido para o seu "ser" através das fotos da Carol."


Me pergunto como me aguenta ainda, post após post :) E, em seguida, me pergunto como posso responder-lhe sem demonstrar a mesma mágoa já conhecida (e questionada) por você. Talvez eu me restrinja aos avanços básicos do dia-a-dia. Mas, isso te satisfaria? Acho que não. É uma sinuca de bico: responder-lhe sem responder à pergunta.


Tenho ouvido repetidamente o vídeo que me enviou. Pulo na janela junto com ela, corremos para o nada e de volta para casa nos escondemos num canto. Canto com ela e meu coração dá pequenos espasmos de dor e alívio. Alguém sofre aqui fora. Ela testemunha, mas não a aborreço, ela não me escuta. Apenas me embala, pacientemente, noite após noite.


Ando lembrando, Mr. Almost, de Ian McEwan. Costumava lê-lo e, como deve saber, seu tema gira em torno de pequenos (ou grandes) deslizes do destino que afetam permanentemente seus protagonistas. Escrevo longas cartas a Ian, narrando minha própria história. 


Aliás o termo correto mora no inglês: damaged.



Sobretudo, silencio as vozes fora de mim para que a voz da Carola fique mais clara quando - nas noites de sábado - ela conversa comigo enquanto escrevo posts no meu blog.


;-)





quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Afogamento


Não ficou a lembrança
Nem as risadas
Acho que elas nem existiram
Só lembrava dele com aquela cara de morte

Vê-lo era espiar um afogamento
Toda vez que esticava a mão
E tocava a lama
A terra quente
Areia movediça

Não sabia porque ficava
Ou porque voltava

Por que a despedida sempre me comove?
Qualquer uma
Acho que me lembra morte


Se eu não te ver mais
o rastro dessa memória
Se precisar de mim, jura que me chama?
Arruma um lugar para mim na sua história

É que a gente sabe o que é não ter lugar
Então, pensei que se eu te desse esse canto, você me daria um também

Não, não precisamos de paixão.
Estamos vivos ou morrendo aos poucos e isso basta
Para te amar
- quando olhar para trás e lembrar

Eu podia ter te contado tudo que você significou
Tentei
agora é tarde
é meia noite

Me preocupo com você
comigo também

A gente perdeu tanto tempo

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Todesfuge







"...Leite negro da madrugada bebemos-te de noite
bebemos-te pela manhã e ao meio-dia bebemos-te ao entardecer
bebemos e bebemos
Na casa vive um homem que brinca com serpentes 

escreve ao anoitecer para a Alemanha 
os teus cabelos de ouro Margarete
Os teus cabelos de cinza Sulamith 

cavamos um túmulo nos ares 
aí não ficamos apertados"


Todesfuge, Paul Celan




quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A tatuagem




"In the mirror it's Sunday,
in dream there is room for sleeping,
our mouths speak the truth."



domingo, 17 de janeiro de 2010

Boa noite

Espiei a luz que entrava pela janela e desanimei. Não, não quero acordar, obrigada. Não, não quero mais um dia dessa palhaçada, obrigada.


Esperei. Talvez fosse apenas um pesadelo, quem sabe, dizem que Deus é pai e não padrasto.


Decidi tentar de novo. Abri os olhos lentamente e apurei novamente o quarto. Iluminado, diurno, aceso. Sim, já era uma da tarde e eu precisava sair da cama. Devagar, arrastada, mal-humorada pisei no tapete maldizendo o universo inteiro. Era um desses dias em que se acorda já se sabendo triste. No meu caso, era um dia normal.


Mas, além da costumeira tristeza, uma outra leve decepção pesava a cabeça.  Misturados os sentimentos, um belo desgosto azedava a boca. 


Não, Mariana, ninguém vai te poupar apenas porque você sofreu e sofre todo dia como um cão que sangra. Por que diabos eu sempre acho o contrário?


"nobody likes to
But I really like to cry
Nobody likes me maybe
If I cry"


Fui em direção ao primeiro café do dia entoando o mantra da Tegan e Sara.


"Calm down I'm calling back to say
I'm capsized staring on the edge of safe..."


Uma lágrima me beijou um bom dia com hálito frio. 


Vai passar. De um jeito ou de outro. Meanwhile, mais textos da sorella. É um fragmento, mas imediatamente a imaginei flutuando pelas ruas e sorrindo. And that is all I need to smile back e me dar coragem para sobreviver até a noite.


Te amo, irmã. Espero que ouça isso, do pedacinho de nuvem onde está sentada.


Mariana





Hysteriquices, 2007 


"Hoje acordei diferente. Flutuei distraída pelas ruas enquanto anjos pós-modernos tocavam Placebo e Cinematic Orchestra só pra mim. O céu azul estava mais azul e as nuvens carregavam segredos, mas não tive pressa de decifrá-los. Sorri sozinha sem saber o porquê e ainda sem tocar o chão. Hoje acordei com seus olhos nos meus.

Música para levitações e deciframento de nuvens: All that you give, Cinematic Orchestra"




Carolina T. D. vaz

sábado, 16 de janeiro de 2010

No title







Há quase oito meses vivo como "não-gêmea". A sensação é de ser uma espiã inglesa na Alemanha nazista. Observo como esses seres livres e individuais cultivam suas amizades, lidam com seus relacionamentos e encaram os revezes do dia-a-dia. Sou feita do mesmo material que eles, sou humana. Mas,  sou à parte. A impressão que hoje tenho é que, quando se nasce sozinho, o outro é  o Outro. Não há misturas. Nesse mundo é muito claro (e não poderia ser diferente) que as escolhas são feitas para si próprio e a satisfação ou insatisfação são os guias para as buscas pessoais.

É óbvio?

Para mim não. No meu mundo, minha irmã vinha primeiro. Ou, junto comigo. Eu nunca estive inteiramente feliz, porque não estava feliz se ela não estivesse. E, quando ela se foi, sobrou esse imenso vão. A primeira resolução foi que não sofreria mais por outra pessoa viva. Vale se chatear, ficar triste, se decepcionar. Mas, sofrer, sofrer, não.  Expectativas são inevitáveis, mas só cabe a mim abandonar o sofrimento quando elas falham. E tenho feito isso religiosamente e, curiosamente, sem muito esforço. Simplesmente não vale à pena, não resolve e piora tudo. Decepções vieram e eu as recebi friamente, como quem atura uma visita inconveniente. Quando sofria por alguém,  deixava a dor passear pelos meus cantos, leve, até se cansar e ir embora.

E o próximo passo era recordar o quão fácil é elevar o outro a um status maior do que ele ou ela merecem, ainda mais quando se carrega essa metade vazia.

Nessa tarde, vaguei pela casa à procura sem saber que estava à procura. Acendi alguns cigarros, levantei de novo, pensei em ligar para uma amiga e não liguei. Critiquei silenciosamente dois ou três amigos que estavam em falta comigo até me dar conta que era a saudade que doía. Limpei o fiapo de sangue que escorria do peito, troquei o curativo e me pus a fuçar nos textos dela. Imaginei seu ar blasé, cigarro aceso a contar a história com um tom de "óbvio ululante".

O texto, extraído do seu blog, foi escrito em  meados de 2007.



Boicote: o passado não deixa saudade

Decidi resgatar minha fé no ser humano e apostar que o Babenco podia fazer um filme que prestasse. Enganei-me, caro leitor. Os 20 reais mais mal-gastos do ano, that´s for sure. O velho Hector conseguiu se superar: se Carandiru já era no mínimo discutível, O Passado é puro mau-gosto.
Não li o livro, mas minha sorella leu e acompanhei de perto seu sofrimento. A moça quase surtou com o prolixismo do Alan Pauls, que leva 6 páginas para descrever uma simples entrega do carteiro. Aquela coisa de quem acha que fala bem - acaba falando demais. Ela conseguiu chegar no final do livro mas pagou o preço com alguns acessos de raiva contra a verborragia do autor e um certo maniqueísmo da história. Olhando de fora, era como criança que toma fôlego pra terminar o prato de jiló. Temerosa porém imbuída de um certo senso de dever literário, pedi o calhamaço emprestado. A resposta? "Não vale a pena".
Pois é, meninos e meninas. O panorama já não era muito encorajador, mas mesmo assim respirei fundo, coloquei um salto baixo e fui assistir o filme. Saí da sessão praguejando e planejando piquete na porta do cinema pra advertir os incautos contra a roubada. O filme é ruim, muito ruim. Cheio de clichés e cheio de mau-gosto, começando pelas cenas de sexo que fariam pornôs de quinta corar de vergonha. E, proeza das proezas, até o ótimo Gael acaba canastrando e afunda na tela tal qual Titanic graças à mão pesada do Babenco.
Se o livro já não era lá essas coisas, o filme consegue piorar bastante a situação. Segundo a sorella, pelo menos o livro é um pouco mais nuançado e explora minimamente o conflito dos personagens. Não é o caso da versão cinematográfica, que poderia ser resumida em uma linha: "Psicótica e boçal se separam e depois voltam". E ponto.
De onde o Babenco conseguiu tirar tanto cliché, gente? Minha impressão é que a tese dele é só uma: "as mulheres são loucas, os homens uns bananas". Bom, até aí cada um com a sua mania. Mas fazer um filme só pra provar essa tese, que além de tudo é pobre? Melhor pegar o dinheiro e investir numa boa análise.
Sofia é uma louca de pedra que atazana a vida do ex-marido e adora pagar de maluca, com direito a rímel borrado e cabeleira desgrenhada. Rímini é uma mosca morta que não consegue nem reunir coragem pra pegar a caixa de fotos com a ex, sofre de ejaculação precoce e estraga a vida de todas as coitadas que atravessam seu caminho. Depois de muita enrolação e melodrama, os dois voltam. Nisso já se passaram duas horas (duas? pensei que fossem quatro) e o espectador está roncando na poltrona. Se o herói conseguiu ficar acordado, como eu (que não tenho talento para o heroísmo mas sofro de insônia), com certeza está de estômago virado com as cenas grotescas e anti-clímax de sexo. Quando o final chega, a sensação de alívio que o acompanha é o ápice a que esse filme-engodo consegue chegar. Isso e a certeza de que o Babenco não entende nada, nadinha, de mulher.

Carolina T. D. Vaz

Quem sou eu

Minha foto
Ella M.
Do meu computador, vejo o jardim e a foto dela
Visualizar meu perfil completo